Eu, Jimny e Deus no Ushuaia

 

Mauricio Fernandes decidiu a viagem de bate e pronto. E teve uma experiência ímpar

 

 

Vamos acompanhar o relato do off-roader Maurício Fernandes, que realizou uma tarefa complicada: viajou até o Ishuaia sozinho, quase que de sopetão, numa aventura que mesclou prova de resistência física e mecânica.

Por Maurício Ricardo Fernandes

 

Preparação: Guincho, Snorkel e Barra de led instalados

 

 

“Minha largada para uma aventura até o fim do mundo teve muita emoção e adrenalina. Minutos antes de sair, minha família e eu nos olhávamos com um misto de ansiedade e preocupação, pois talvez ficaríamos dias sem contato algum, só com a certeza que teria a companhia de Deus e do meu Suzuki Jimny.

 

Preparação: pneus espaciais e correntes para a neve

 

Parti dia 03 de julho por volta das 6:00 AM, para uma jornada longa, todos me perguntavam quanto tempo levei para planejar esta viagem, resposta simples: 30 segundos. Contei  no meu polegar a distancia no mapa de São Paulo e Farol de Santa Marta, aproximadamente 900 KM. Contei quantos polegares até o Ushuaia, percebi que seriam 10.

 

Farol de Santa Marta, SC

 

Minha meta e planejamento estavam prontos. O primeiro trecho ate o Farol de Santa Marta foi bem tranquilo, eu estava muito empolgado para sentir qualquer tipo de desgaste, cheguei a noite na ilha, com uma temperatura aproximada de 13ºC.

 

Chegando em Barilhoche, Argentina

 

Um guarda noturno me ofereceu um dormitório de empregados, não pensei duas vezes já que estava muito tarde e além disso precisava preparar o meu jantar. Além disso também levaria muito tempo para montar a barraca no teto do veiculo em um bagageiro em madeira especialmente preparado por meu pai e um amigo.

 

Primeira placa com os dizeres sobre o Fin del Mundo! Foi emocionante ver esta placa depois de 8 dias na estrada

 

 

 

 

O carro estava muito pesado no início da viagem. Ushuaia

 

Depois de sair de Santa Catarina e pegar um trecho de estrada mais aberto, percebi que havia cometido um grande erro. Eu estava com o Jimny extremamente carregado, podia sentir a suspensão dar fim de curso nas ondulações e imperfeiçoes no asfalto.

 

Pela estrada afora… Uruguai, sentido Montevideo

 

Então não me restou outra saída, parei em Porto Alegre e com a ajuda de alguns bons amigos que trabalham comigo, me ajudaram a despachar muitos quilos de coisas para retornar a São Paulo, fogão, bujão, lap top, garrafão térmico, travesseiro, etc.

 

Parque Torres del Paine

 

Além de eu ter diminuído bem o volume, percebi uma boa diferença no peso. Passei pelo Chuí e ao entrar no Uruguai recebi o aviso logo na fronteira de Alerta Amarillo, que é o termo usado para fortes chuvas, tive que tirar bem o pé, pois a visibilidade era muito baixa, em alguns trechos a água era tanta, que os rios já cruzavam por cima das pontes. Muito sinistro de cruzar, porem não restam muitas alternativas já que tinha o tempo contado.

 

Rota 40 Sentido Norte

 

 

Buquebus – Colonia – Buenos Aires

 

Após descer a costa toda do Brasil e fazer a costa toda do Uruguai, parei em Montevideo. Lá fui em duas oficinas de ótimos amigos, onde tive que fazer um reparo em uma correia que do alternador que começou a chiar. Na outra oficina troquei o silenciador dimensionado, pois o serviço de instalação não foi feito corretamente e a peça não suportou a viagem. Perdi ½ dia lá fazendo estes reparos e parti para Colônia para pegar o Buquebus e cruzar para Buenos Aires.

 

Rota 3 – Tierra del Fuego

 

Tentei dirigir o máximo que pude e parei bem perto da saída da estrada, em um hotel já no fim de La Plata, próximo já a Ruta 03, que me levaria ao meu destino final. O café na manha na argentina é bem fraco comparado ao nosso, muitas vezes café, suco e torradas. Para uma pessoa que vai passar o dia dirigindo, sem saber onde será o próximo abastecimento ou parada para comida, não é o suficiente.

 

Fim da Rota 3 – Tierra del Fuego – Ushuaia – Ciudad del Fin del Mundo

 

Meu primeiro trecho de estrada aberta na Ruta 03, percebi que meu carro ainda estava pesado, os ventos fortes faziam com que com carro andasse com a carroceria bem inclinada, era impossível segurar o volante com uma mão. O lado direito do meu corpo ficou com a musculatura travada. Já não havia mais como enviar coisas para o Brasil.

 

Rota 40 Sentido Norte

 

O jeito foi segurar firme o volante e deixar o 4×4 ligado direto, era o que ajudava um pouco o carro ter mais controle. O asfalto bem desgastado com marcas dos pneus de carretas pesadas, faziam com que o carro copiasse as irregularidades da pista, isto somado ao vento, tornava impossível engatar a 5° marcha. Por muitos quilômetros foi possível somente dirigir em 3° marcha, era a única maneira de vencer o vento e tentar ter o carro um pouco na mão.

 

Paso Garibaldi – Ushuaia – Tierra del Fuego

 

Meu carro está equipado com 5 pneus 31’, lift na suspenção de 1,5’ e bodylift de 2’ o que na somatória da 14 cm de altura, mais um bagageiro de teto de 15 cm. Isso mudou completamente a força de arraste do veiculo que não suportava as rajadas de ventos laterais fortes, para se ter ideia, vento era suficiente para segurar a porta e não conseguir abrir para descer do carro, cheguei pensar que a porta havia emperrado.

 

Puerto San Madrin

 

Com novamente um problema de peso entre o trecho de Puerto Madryn e Puerto San Julian, cheguei pensar se conseguiria mesmo chegar em 10 dias no meu destino.  Em alguns momentos treminhões extremamente carregados me passavam na reta, pois não havia maneira de conseguir segurar o carro na pista de tão forte que eram os ventos, cheguei usar 2° marcha um momento na reta para passar um desses, mas no fim tive que me render e dar passagem. Não havia como se manter a frente da carreta.

 

Puerto San Julian – Província de Santa Cruz

 

Passaram muitas coisas na minha cabeça, parar e retirar o bagageiro ou suportar ele durante toda a viagem e usa-lo onde queria que era acampar no fim do mundo. Liguei para meus pais e uma amigo que haviam feito o mesmo trecho de Defender e eles confirmaram que andava de 3° e 4° marcha com o pé no fundo para vencer os ventos.

 

O valente JImny usado na viagem. Ao final, as correntes não foram necessárias

 

O desgaste em pequenos trechos era infinitas vezes maior que o esperado. Então o jeito foi diminuir as paradas nas refeições. Eu tinha muitas latas de atum no carro, que eram as minhas deliciosas refeições junto com torradas e energético, com direito a sobremesa: torrada com nutella. Uma combinação que me mantinha alimentado e acordado. Fiz a escolha de seguir com meu bagageiro.

 

Atum na refeição

 

Quando era possível mantinha 4ª marcha e pé no fundo a 90km/h, 4×4 ligado e duas mãos firmes no volante para segurar o carro, mais que isso não havia como.

Nos trechos mais descampados o veiculo fazia 6,5 Km/l com um tanque relativamente pequeno, levei gasolina no carro, o que me rendeu uma parada, pois o galão adicional com a forte pressão interna se rompeu e vazou muita gasolina dentro do carro. Com o frio não tinha como ficar com as janelas abertas. Nas paradas ate meu hálito era de combustível. Problema resolvido.

 

E torrada com nuteka para sobremesa

 

Fiz algumas paradas a noite na estrada para tirar fotos, a sensação de ouvir o barulho do silencio da natureza é quase que indescritível, escutar somente os sons do vento e algumas vezes o som de galhos se quebrando,  um lugar que você não enxerga o fim para nenhum dos lados que olha. O Céu e a lua eram coisas inacreditáveis de se ver. O trecho entre Bahia Blanca e Puerto Madrin foi bem extenso e cansativo. Viajando a 70 km/h algumas vezes, com mais de meio pé no acelerador.

 

Paradinha para fotos – Rota 3: Entre Rio Grande e San Sebastian

 

Já não contava mais a viagem em quilômetros, tudo era em dias. Neste trecho descampado, dirigi umas 15 horas direto, devido a baixa velocidade decorrente do vento. Cheguei a pensar se realmente eu iria conseguir e voltar no prazo para o meu trabalho.

O carro muito pesado, minha primeira viagem acima de 5 dias na estrada, super dimensionei a quantidade de coisas.

Quando eu vi a primeira placa “Ruta del Fin del Mundo” ate me emocionei, fui com dois celulares com o waze, um mapa relativamente antigo e bússola para os piores momentos.

 

Fim da Rota 3 – Tierra del Fuego – Ushuaia – Ciudad del Fin del Mundo

 

Após 9 dias parando somente para abastecer e dormir, finalmente alcancei meu objetivo, passei pelos Portais do fim do mundo e cheguei onde termina a ”Rute 03” da argentina, momento de realização… Olhar para trás e lembrar de todas as maravilhas experiências que tive durante o caminho e tudo aquilo que ainda iria ver pela minha frente, pois ainda tinha que subir a Cordilheira dos Andes no inverno.

 

Paso Garibaldi – Ushuaia – Tierra del Fuego

 

Não pude dormir nos campings do Ushuaia, por que todos são fechados e é proibido acampar no inverno nos parques devido a temperaturas extremas. Tive que realizar minha vontade no extremo do Chile, Cidade de Punta Arenas. Depois de muitas horas dirigindo, parei em um posto de gasolina e acampei no teto do carro, as temperaturas chegaram a -5ºC no termômetro, sensação térmica de -8ºC, pois a barraca segurava bem os ventos.

El Calafate – Glacial Perito Moreno: 70 metros de altura

 

Arrisquei ir dormir sem a segunda pele, não sabia se levantava na noite e ia para o carro ligar o ar quente ou tentava me aquecer dentro do saco de dormir. Resisti a noite toda e segui viagem.

Fui visitar muitos parques porem ao visualizar o Glacial de EL Calafate, fiquei impressionado com tanta beleza. Tinha certeza de que após ter visto aquilo, que a viagem toda valeu muito a pena, afinal 70 metros de altura de gelo não é sempre que vemos.

 

El Calafate – Glacial Perito Moreno

 

Subindo a “Ruta 40” haviam duas opções de caminho, a de terra e asfalto. É logico que eu fui pela de terra. O que eu não sabia era que a estrada de terra não tinha posto de gasolina e era uma parte da Rota 40 que estava fora de operação. Mesmo com toda a gasolina reserva eu não chegaria a lugar algum, o jeito nestas situações sempre foi ter calma, fé, positividade. Então Deus me enviou uma família que passava por ali, pois trabalhavam em um racho por perto. Somente pessoas locais conheciam este rancho, quem passa pela rodovia de terra coberta de neve, fica difícil saber se realmente você ainda esta na rodovia ou fora dela.

 

El Calafate – Glacial Perito Moreno

 

Consegui completar o tanque e seguir viagem chegando novamente quase sem gasolina no posto. Eram necessários dois tanques para fazer o trecho que fiz. Foi bastante duro, com lama, gelo, neve e rajadas espetaculares de vento que tiravam o carro da pista fazendo-o escorregar para lateral. Para quem gosta momentos de pura adrenalina.

 

Rota 40 trecho fora de operação – Perto da Cidade de Espereanza – Provincia de Santa Cruz – Lugar onde acabou minha gasolina

 

Passei por trechos que pareciam noite, mesmo durante o dia. Era tanta neve que o limpador não tinha muita força para tirar a neve do vidro. Tudo lá fora estava completamente congelado. A sensação de dirigir no meio de uma nevasca é impressionante. Eu não utilizei as correntes, muito antes a policia havia me parado e viu que meus pneus dariam conta. Então não me preocupei.

 

Rota 40 subindo a Cordilheira dos Andes

 

E assim cheguei em Barilloche. Tive a oportunidade de andar de Snow Board, já que andava de skate, achei que era bem parecido. Fiz um teste rápido achei que dava para ir direto ao cume. Quando cheguei lá, percebi que não era para qualquer um. Fiquei a viagem toda sentindo dores no pescoço já que o tombo não foi nada simples. Cheguei a fazer umas trilhas na neve em Bariloche.

 

Rota 40 subindo a Cordilheira dos Andes

 

Fiz o trecho entre Bariloche e Bahia Blanca para o retorno. Foi um trecho bem longo e demorado. Muitas paradas para abastecer, o tanque do meu carro é pequeno e o consumo acaba ficando alto por causa dos ventos e tipo de estradas.

 

Trilha no Cerro Catedral

 

Passando na volta por Buenos Aires, já podia sentir o alivio de estar do lado da minha casa. Voltei por terra pelo Uruguai e no ultimo pedágio antes de entrar no Brasil, eu percebi que não tinha mais dinheiro em espécie. Apesar do pedágio aceitar moedas do Brasil, Argentina e Uruguai eu só tinha para pagar se juntasse as três moedas. Eles não podiam aceitar três tipos de moedas diferentes e a cidade era bem longe de onde eu estava. Com muito jeito consegui trocar minhas 3 moedas pela moeda local com o diretor do pedágio que estava naquele momento. Em gratidão dei doces argentinos para ele.

 

Rota 47 Sentido Parque Nacional Los Glaciales

 

 

O retorno foi bem tranquilo, e a emoção de saber que estava chegando em São Paulo cada dia era maior.  Chegar em casa e ver seus pais lá fora te esperando, não tem preço. A realização de um sonho e o comprimento dele é uma sensação que ninguém pode te tirar nunca mais de você. Faz você acreditar mais em você mesmo, e não dizer não para seus sonhos, você pode fazer tudo que quer, basta acreditar.

Trilha no Cerro Catedral

 

Ninguém pode te dizer ao contrario. Obrigado a Deus e todos que participaram um pouquinho de alguma maneira na minha jornada.

 

Amizades feitas na estrada

 

Eu nunca me senti sozinho, todas as mensagens que recebi, até de pessoas que nem conhecia, me fizeram sentir ótimo!

 

Trilha no Cerro Catedral