Aldo Meliani – Um fantástico legado  

 

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No dia 10 desse mês, perdemos um amante nato do Jeep original; de seu conceito e sua utilização. Referente o que se refere à história, preservação e restauração de veículos militares antigos, com menção ultra especial aos mágicos Jeep Willys e Ford, o paulistano Aldo Meliani era um dos maiores conhecedores do tema. Vamos lembrar que ele estava lá, na linha de produção, quando a Willys Overland fabricava seus primeiros modelos nessas terras. Uma paixão consumada e continuada em uma história tão bonita, quanto rara.
Na matéria a seguir, vamos lembrar a matéria que Juliana Santos fez com o “seu Aldo”, em 2002.

 

Angelo e Aldo são conhecidos restauradores de veículos militares

Angelo e Aldo Meliani: reconhecidos restauradores de veículos militares

 

 

Página da História*

Preservar a história através do automobilismo é a função de Aldo Meliani, restaurador de carros 4×4 antigos e militares. O mecânico conta com experiência de quase meio século, representada pela passagem como funcionário na Willys Overland do Brasil

Texto Juliana Santos fotos Donizetti Castilho e Juliana Santos
Arquivo Pessoal

 

 

Em seu local de trabalho. Meliani amava os jipes

Em seu local de trabalho, onde Meliani amava trabalhar com os jipes. Muito além de apertar parafusos…

 

 

As mãos habilidosas de Aldo Meliani desempenham um papel inédito e muito importante para conservar a história. Elas mantém viva o passado através da restauração de jipes antigos e veículos militares, alguns deles usados na Segunda Guerra Mundial. O simpático senhor de 64 anos, mecânico e restaurador, é uma fonte viva de informação sobre qualquer modelo, marca ou ano destes carros, pelos quais se apaixonou há quase 50. “ O povo brasileiro é curto de memória. Se há presente, houve passado e haverá futuro. São três tempos diferentes, mas um depende do outro”.

 

Carteira de trabalho

Carteira de trabalho

 

 

Desde os sete anos de idade, Meliani já observava, em sua rua, um Jeep 42 acompanhado de um caminhão GMC, que fazia um trabalho muito interessante. Eles vinham buscar pombos-correio que o vizinho criava para o exército. Vendo constantemente aquela cena, Meliani estabeleceu um ideal: o primeiro carro de sua vida seria um Jeep 42. E realmente foi, o qual possuí até hoje.

Apesar do pai ser marceneiro, Meliani já sabia desde cedo – 15 anos de idade – que queria ser mecânico. Certo da escolha, procurou uma oficina próxima a sua casa e lá teve os primeiros contatos com o ofício.

 

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O fascínio que os veículos exerciam no (até então) aprendiz de mecânico era tanto, que ele começou a guardar todos os jornais e revistas da época sobre o assunto. Além dos recortes, Meliani foi comprando vários manuais em concessionárias e recolhendo sobras nos quartéis. Hoje, o acervo tem quase 2 mil unidades consultadas por gente de todo Brasil.

Aos 20 anos, o mecânico trabalhou na extinta Willys Overland do Brasil – no sentido literal da palavra, a “fábrica de sonhos” de qualquer off-roader. O contato diário com verdadeiro Jeep aumentou ainda mais o gosto e a vontade de possuir uma daquelas máquinas, quase inacessível no tempo em que ainda havia muitas carroças nas ruas.

 

Jeep 42 - companheiro eterno

Jeep 42 – companheiro eterno

 

Na Willys, Meliani ficou somente dois meses – maio a julho 1958 –, atuando na linha de produção, onde saíam 90 motores por dia. E o trabalho não foi fácil. “Se tivesse de ir ao banheiro tinha de apertar um botão e uma pessoa vinha no lugar”. Como o única tarefa que realizava era “apertar parafusos”, ele decidiu sair da Willys e buscar novos horizontes. “Eu queria aprender a fazer reforma geral. Queria trabalhar em um lugar onde pudesse mexer em tudo”, contou.

 

Sabe aquela história de colocar a mão na graxa?

Sabe aquela história de colocar a mão na graxa?

 

 

E o local que definitivamente deu oportunidade a Meliani “destrinchar” as viaturas foi a Prefeitura de São Paulo. Lá, o mecânico passou por várias seções, fazendo manutenção de caminhões, picapes, ambulâncias e, é claro, jipes.

 

O legado profissional deixado é formidável

O legado profissional deixado é formidável

 

Segundo o restaurador, naquela época, a Prefeitura tinha duas frotas de jipes – 200 carros aproximadamente –, uma da Secretaria de Finanças e outra do Departamento Jurídico. Havia necessidade dos 4×4 nestes setores porque as Finanças, para fazer levantamento dos impostos, tinha de ir para todos os lugares da cidade, inclusive os mais difíceis. E o Jurídico, conseqüentemente entregava intimações em São Paulo inteira, quando necessário. “Senti saudades de algumas pessoas especiais, e também do serviço, que eu gostava muito”.

 

 

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Na Prefeitura, onde permaneceu 33 anos, Meliani trabalhava 12 horas por dia, dia sim outro não, e naqueles intervalos, atuava em uma oficina de militares, cujos donos eram um capitão e  um sargento do exército. Por intermédio deles, realizou seu sonho: comprou seu Jeep 42, no ano de 1967.

 

 

Um pedacinho da biblioteca dos Meliani

Um pedacinho da biblioteca dos Meliani

 

 

 

Depois do exército, Meliani foi o primeiro e único dono do Jeep, adquirido no Parque Regional de Motomecanização da Segunda Região Militar/Ministério da Guerra. O Jeep, que levou 20 anos em uma reforma ficou totalmente original, é invejado por muitos. “Meu Jeep eu não vendo. Inclusive, um camarada fez um cheque em branco e disse ‘põe o preço’”.

 

 

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Já aposentado, o experiente mecânico não parou de trabalhar. Abriu uma oficina de restauração – uma das poucas que executam este serviço no Brasil – e trabalha artesanalmente na recuperação destas raridades, detalhe por detalhe.

 

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A paixão de Meliani se extendeu ao filho, Ângelo, companheiro de trilhas e trabalho. Observando a arte do pai, Ângelo repetiu a história: recortava tudo sobre 4×4 e militares e catalogava. Ainda menino, lia uma publicação sobre mecânica e ficava impressionado como os restauradores transformavam “aquele monte de ferro jogado” em um calhambeque. “Eu olhava as ferramentas, os recortes e comecei a entender que lendo o manual você consegue montar direito um carro”, explica Ângelo, que assim como o pai, também teve um Jeep como primeiro carro de sua vida. Hoje, seu entusiasmo supera o do pai, que diz: “o Ângelo é mais sonhador que eu”.

 

  • Matéria originalmente publicada na Revista 4×4&Cia, edição 104, de 2002.